A verdade é a adequação do intelecto à coisa. Essa definição, que atravessa séculos de filosofia, é o antídoto contra o relativismo, que, ao afirmar que toda verdade é relativa, comete uma contradição no próprio ato de afirmar.
Quando perguntamos o que é a verdade, estamos fazendo a pergunta lógica. Não se trata de uma questão existencial vaga, mas de algo preciso: quando é que uma sentença é verdadeira? Quando é que ela é falsa?
A definição clássica
A resposta mais razoável, segundo o professor Bertato, é a que a tradição aristotélico-tomista apresentou: a verdade é a adequação do intelecto à coisa. Existe um mundo exterior, eu acesso esse mundo, penso sobre ele, e se o que está na minha inteligência corresponde ao que está na realidade, meu juízo é verdadeiro.
Alfred Tarski, lógico polonês do século XX, formalizou isso de maneira elegante: a proposição a neve é branca é verdadeira se e somente se a neve é branca. O que está entre aspas é a proposição. O que não está entre aspas versa sobre o mundo real.
O paradoxo do barbeiro
Para ilustrar os problemas que surgem quando abandonamos essa visão, Bertato apresenta o paradoxo do barbeiro: em uma vila, o barbeiro barbeia todos e somente aqueles que não se barbeiam a si mesmos. Quem barbeia o barbeiro? Se ele se barbeia, ele não deveria se barbear (pois só barbeia quem não se barbeia). Se ele não se barbeia, então ele deveria se barbear.
Esse paradoxo mostra como a autorreferência pode gerar contradições. E tem implicações profundas para a matemática e para a lógica.
O relativismo como contradição performativa
Uma versão simplificada do relativismo forte diz: toda verdade é relativa. Mas essa proposição é absolutamente verdadeira? Se for, ela se refuta a si mesma, porque está afirmando algo absoluto. Se não for, então nem toda verdade é relativa.
Isso é o que se chama de contradição performativa: o conteúdo do que se diz contradiz o próprio ato de dizê-lo. É como alguém que diz eu estou mentindo, se é verdade que está mentindo, então o que disse é falso; e se é falso, então não está mentindo.
Por que isso importa
Negar a verdade já pressupõe afirmá-la. Mesmo que a verdade seja desconhecida, existe um estado de coisas objetivo que não depende da nossa vontade. Defender o realismo, a ideia de que a verdade é a adequação ao real, não é uma posição ingênua. É o fundamento de qualquer pensamento sério.



