O que leva o ser humano a filosofar? Não é a necessidade prática nem a curiosidade casual. É a admiração, um espanto diante da realidade que nos faz perceber o quanto ainda não sabemos.
Existe uma experiência que está na raiz de toda a atividade filosófica. Não é a dúvida metódica de Descartes, nem a angústia existencialista. É algo mais simples e mais profundo: a admiração.
Platão: o espanto que abre os olhos
No diálogo Teeteto, Platão relata uma conversa entre Sócrates e Teeteto sobre o que é o conhecimento. Em determinado momento, Teeteto diz: Pelos deuses, Sócrates, meu espanto é inimaginável ao indagar-me o que isso significa. E às vezes, ao contemplar essas coisas, verdadeiramente sinto vertigem.
Sócrates responde: esse espanto, o thaumazein, é a origem da filosofia. Não há outra. É a capacidade de se espantar perante a realidade que faz de alguém um filósofo.
Aristóteles: a admiração que leva à busca das causas
Na Metafísica, Aristóteles confirma: foi pela admiração que os homens começaram a filosofar. Perplexos de início, avançaram pouco a pouco e enunciaram problemas a respeito dos maiores fenômenos, como o sol, a lua, as estrelas e a gênese do universo.
O homem que é tomado de perplexidade e admiração julga-se ignorante. É por isso que o amigo dos mitos, o filomito, é, de certo modo, um filósofo: pois o mito é tecido de maravilhas.
São Tomás de Aquino: a busca pela causa última
São Tomás acrescenta uma dimensão fundamental. Na Suma Contra os Gentios, ele afirma que o ser humano tem o desejo natural de conhecer as causas das coisas. E não se contenta com um conhecimento superficial, quer chegar à causa primeira.
Isso significa que a admiração não é apenas espanto. É uma inquietação que não se aquieta até encontrar o fundamento último de todas as coisas. Para Tomás, esse fundamento é Deus.
Admiração não é sentimento, é tomada de consciência
É importante distinguir: o espanto filosófico não é emoção. É uma tomada de consciência da própria ignorância. É perceber que, por mais que você saiba, há muito que você ainda não conhece. Essa humildade intelectual é o ponto de partida de toda verdadeira formação.



