Muitos consideram a filosofia um luxo intelectual reservado a quem já resolveu todas as questões práticas da vida. Josef Pieper mostra o contrário: sem transcender o mundo do trabalho, o ser humano se desumaniza.
Tem muita gente que diz que a filosofia é frescura. Que é um artigo de luxo que ninguém precisa estudar. Que quem tem boleto para pagar e problema para resolver não vai ficar olhando para o mar perguntando o que é a vida, o que é o bem.
O mundo do trabalho
Josef Pieper, filósofo alemão do século XX, faz uma distinção fundamental. O mundo do trabalho é o mundo das necessidades, das satisfações, das funções, das eficiências. É o dia a dia: boleto, escola, almoço, médico, emprego. Isso não é ruim, faz parte da existência. Todo mundo tem que resolver problemas.
Mas quando o mundo do trabalho é tudo o que há, quando a vida se reduz às utilidades, algo essencial se perde. O ser humano não é apenas um ser que trabalha. Ele é um ser que pensa, que contempla, que busca sentido.
As pseudo-realizações
Pieper alerta para um perigo sutil: as pseudo-realizações. São experiências que, na aparência, ultrapassam o cotidiano, mas que, na verdade, nos enfiam ainda mais no imanente. Uma religião útil, uma arte útil, uma filosofia útil, nenhuma dessas coisas leva ao transcendente. Elas servem ao mundo do trabalho, não o transcendem.
Uma religião focada em prosperidade, por exemplo, não vai fazer você transcender. Vai te prender cada vez mais no cotidiano. O mesmo vale para uma arte que é instrumento político ou uma filosofia que só serve para dar respostas práticas.
O fechamento ingênuo e o fechamento sofisticado
Pieper distingue dois tipos de fechamento à transcendência. O ingênuo é o da pessoa que simplesmente não sabe que há algo além do cotidiano. Esse é mais fácil de abrir, porque uma questão filosófica bem colocada pode despertar essa pessoa.
O fechamento sofisticado, o do pseudofilósofo que já leu Kant, Hegel, Marx, Foucault, é muito mais perigoso. Porque essa pessoa acha que sabe, e o que ela sabe a fecha ainda mais.
Por que isso importa
A filosofia não é artigo de luxo. É uma necessidade humana. O ser humano precisa ir além do mundo do trabalho, não para abandoná-lo, mas para não ser aprisionado por ele. A poesia, a arte, a religião e a filosofia são os caminhos para essa transcendência. E entre eles, a filosofia é o mais fundamental, porque é ela que nos ensina a pensar sobre tudo o mais.



